O escritor português Ricardo Silva, um aficionado pela trilogia Senhor dos Anéis, apreciador de literatura de viagens, leitor assíduo de Blake e Mortimer, Corto Maltese, Blueberry, XIII, e apaixonado pelos aventureiros, como o alpinista João Garcia, criou um campeão de acessos no NeoReader, o Quero Voar!.
Avesso ao tema política – clama por uma versão portuguesa de Obama para dar um jeito na política local – o autor prefere, disparado, discutir literatura, música e cinema. E como não podia deixar de ser, o escritor da terra dos nossos colonizadores reza a cartilha do bom português: adora os pratos de bacalhau. “Podia viver anos só a comer variedades culinárias baseadas em bacalhau, incluindo os incontornáveis pasteis, bolinhos, e afins”, afirma Silva, que parece se divertir a cada pergunta do Blog do NeoReader.
Depois de um salto de pára-quedas na cidade Évora, no Alentejo, onde estão localizadas cidades depois do Rio Tejo, Silva, também conhecido entre os amigos como Picuinhas– um curioso e investigador nato – deu vazão a essa verdadeira odisseia moderna. “Senti necessidade de expressar emoções, sentimentos e sensações. Em 20 anos não me lembraria bem do que tinha sentido naquele dia, antes, durante e após o salto”, lembra o autor.
Na entrevista, que inaugura uma série de matérias com os autores mais interessantes e inovadores do NeoReader, Ricardo conta como jamais poderia prever que esta história se tornaria um sucesso de acessos na internet. Para se ter uma idéia somente aqui (HIPERLINK), sem mensurar os acessos diretos ao site oficial do e-book, Ricardo já contabiliza quase 27 mil visualizações.
Em um delicioso e simpático bate-papo (realizada por e-mail, em função da distância e da escassez de tempo), este português, aparentemente, risonho e sereno conta detalhes do que o levou a ser um dos sucessos em hit do portal. Acompanhe:
Blog do NeoReader – Como surgiu a ideia do Quero Voar!?
Ricardo Silva – A verdade é que eu não tinha intenção de escrever um conto. Na viagem de volta a casa (em Lisboa), após o salto de pára-quedas em Évora (em 14 de setembro de 2008), comecei a pensar que em duas décadas não me seria capaz de recordar com fidelidade todos os sentimentos proporcionados pela aventura; antes, durante e após o salto.
Os preparativos (des) necessários, os momentos engraçados, as dúvidas, mas também o entusiasmo, a emoção, a adrenalina e a tranquilidade inesperada da experiência. Pensei para comigo: esqueceste de quase tudo.
Era, portanto, necessário naquele momento registrar tudo o que fosse possível.
BN – E como se deu o desenvolvimento do texto que originou o e-book?
RS – Pois bem, diante desta constatação, decidi que não ia deixar isso acontecer. Então, à noite, no mesmo dia, já em casa, decidi por no papel tudo o que me lembrava. Quase febrilmente, estive até de madrugada de volta do teclado do computador, a verter os pensamentos, emoções e memórias dos meses anteriores, até aquele dia. O que meia dúzia de horas depois me dei conta de que havia escrito muito mais do que tinha planejado.
BN – Quando teve a idéia de transformar em um livro eletrônico?
RS – Bem, ao rever o texto pensei que seria engraçado partilhá-lo com os meus familiares e amigos. Tinha a certeza que os ia surpreender, pois a maioria não sonhava que eu fosse capaz de saltar de um avião a 4 km de altitude. Cá entre nós, essa foi a atividade oficialmente mais radical em que me meti até hoje.
Depois de pensar em divulgar o texto dessa forma, achei que se fizesse um e-book e o colocasse em um blog poderia partilhá-lo com o resto do mundo. Talvez houvesse mais pessoas a achar o relato divertido e, quem sabe, até inspirador.
BN– E como foi este planejamento?
RS – Bem, a partir do momento em que comecei a elaborar o lançamento do blog, o que aconteceria duas semanas depois, em 1º de Outubro daquele ano, em www.QueroVoar.pt, após muitas (até demais!) revisões do texto com a preciosa ajuda do meu Pai e de alguns bons amigos, foi ao ar.
BN– Qual foi o investimento para colocar a ideia em prática?
RS –Em termos financeiros, este projeto custou cerca de €250 euros (aproximadamente R$ 750), incluindo o pagamento de registro da marca Quero Voar! (por 10 anos), o registro do domínio DNS, licenciamento das imagens para a capa do livro (o que foi feito pela internet também, no site Shutterstock.com), além de outros pequenos gastos.
O maior investimento foi, porém, dezenas de horas do meu tempo livre investidas a rever o texto, lançar e dinamizar o blog, promover o blog via e-mail e com posts em sites e blogs de referência, responder a e-mails, elaborar press releases, editar imagens, entre outras atividades.
BN – Há quanto tempo está envolvido no mercado editorial?
RS– Foi a minha primeira experiência. Nunca tinha editado nenhum conto nem livro antes. Resultou de um forte impulso para preservar a memória de um momento significativo na minha vida.
BN – Por detrás deste impulso havia outra meta?
RS– Basicamente, disponibilizar gratuitamente o relato desta aventura radical, mesmo, pois é uma narrativa real, sem artifícios nem fantasias. Penso que é bem-humorada e interessante o suficiente para entreter um leitor um par de horas.
BN– Como você analisa iniciativas em e-book? Considera um mercado?
RS– Não tenho objetivos comerciais. Nunca foi essa a minha intenção, nem acho que alguém vá pagar para ler. No entanto, me deparei com a oportunidade, muito gratificante, de aproveitar a divulgação do e-book para colaborar com a rede mundial de troca de livros “BookCrossing”, e com a “Fundação Make-A-Wish Portugal”, com a campanha de donativos da Edição Limitada “Quero Voar!”. Para mim, deu mais significado e consistência à divulgação do e-book.